Um conto sobre Contabilidade

Quando entrei na sala de aula, sabia que aquela seria uma noite diferente. Afinal, não é sempre que se fazem trinta anos de profissão nem vinte e cinco de docência. A Contabilidade sempre foi minha paixão, desde o primeiro dia de aula na graduação e é até hoje. Por isso, queria dar uma aula diferente naquela noite. Nada de exercícios, de livros ou de balancetes.
Como de costume, entrei na sala já dizendo boa noite aos alunos, mas não sentei na minha cadeira. Fiquei em pé.
Depois que todos se acomodaram em seus lugares, disse-lhes: Hoje não haverá chamada!. E olhos esbugalharam-se! Pude ver no rosto de cada um o espanto, afinal, sempre fui um tanto “Caxias” quanto a isso.
– Por favor – disse-lhes novamente – formem um círculo, um único círculo e deixem o centro livre.
Mais olhos esbugalhados! Nunca fizera esse tipo de dinâmica, pensaram certamente alguns alunos.
Quando o barulho das cadeiras e carteiras se arrastando pelo piso cessou, eu encontrei um espaço no círculo e me sentei junto dos meus alunos.


Olhei lentamente nos olhos de cada um observando a cara de espanto, algumas de interrogação, outras apenas ansiosas pelo que estaria (ou não) por vir. No fim disse-lhes: – Hoje não teremos uma aula convencional. Hoje quero ouvir de vocês o que é a Contabilidade. O que ela significa pra vocês. Quem quiser começar, pode vir ao centro e falar o que ache que a Contabilidade é. Pode usar todo o espaço, caminhar de lá pra cá, ou ficar parado. Façam como quiserem.
Imediatamente, e para meu espanto inicial, um jovem aluno levantou-se, pediu licença e veio ao centro da sala. Era um daqueles tidos pelos colegas como CDF.
Começou falando que a Contabilidade é uma Ciência Social, que embora seja comumente classificada como um ramo da Administração, às vezes do Direito, é uma Ciência por si só. Falou que a Contabilidade registra e estuda o patrimônio e suas variações. Citou grandes mestres e pensadores.
Fez jus ao conceito de CDF, certamente.
Quando terminou, ficou me olhando, talvez esperando a nota ou um sinal de aprovação. Não sei.
Apenas fiz sinal para que se sentasse. Depois disso, todos estavam em silêncio. Até mesmo os grilos, se houvesse algum ali, teria parado de cricrilar.
Um minuto, ou dois, e o silêncio tumular ainda pairava e eu olhava, saltando de aluno em aluno, esperando alguém mais enquanto que os alunos começavam a se remexer nas cadeiras, já sentindo o incômodo do silêncio.
De repente, um aluno – vou chama-lo de João – pediu a palavra.
João era um aluno mediano: tirava notas de regulares a boas, fazia os trabalhos extra-classe, faltava de vez em quando. Não era muito participativo, mas também não era daqueles que entrava mudo e saia calado.
– Eu acho que a Contabilidade é como o reflexo de um espelho – disse ele sem ir ao centro da sala como fora pedido.
E continuou: – Ela é o reflexo da realidade. Mas ela somente consegue refletir a imagem daquilo que chega ao espelho e da forma como chega. Por exemplo, se a luz – que é a informação contábil – chega distorcida, a imagem refletida também será distorcida. Por outro lado, se o espelho, que somos nós, os contadores, for convexo ou côncavo, ou tiver qualquer tipo de falha, embora a luz (a informação contábil) esteja perfeita, a imagem da realidade que a Contabilidade refletirá também será distorcida.
Todos ainda estavam calados… prestando atenção nele. Talvez porque ninguém nunca pensou que João falaria daquela forma, mas também porque o que ele tinha dito era a mais pura verdade.
Ciente de que as atenções estavam completamente voltadas para ele, vi seu rosto enrubescer. Sentiu-se certamente envergonhado, afinal não era típico dele fazer esse tipo de discurso. Mesmo assim continuou:
– Cabe a nós profissionais, ou futuros profissionais, escolhermos que tipo de espelho seremos: podemos ser espelhos que irão gerar um reflexo fiel da realidade, podemos até ser espelhos especiais, que mesmo recebendo a luz com alguma distorção, daremos um jeito de corrigi-la para oferecer uma imagem mais real. Ou podemos ser espelhos tortos, defeituosos, refletindo para a sociedade uma imagem distorcida, desfocada, destoante do que de fato é real.
– A minha escolha eu já fiz! Ele concluiu e voltou a sentar-se, agora mais rubro do que nunca, mas com um sorriso discreto no rosto.
De minha parte, não tinha mais nada a falar, apenas dispensei os alunos naquela noite e voltei para casa pensando em qual tipo de espelho eu havia me transformado.

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